A Valorização dos Bens Culturais da Igreja

Pe. Helton Ferreira Rodrigues

Seminário “Preservação dos Bens Culturais da Igreja do Brasil”

Belo Horizonte, PUC Minas, 23/10/2017

Desde os primeiros séculos a Igreja criou e configurou meios para expressar a própria missão. Para isso, buscou e favoreceu as artes para enobrecer tanto a vida eclesial quanto a civil e, desse modo, inspirou a cultura e a história para documentarem a tradição da Igreja. Um imenso patrimônio histórico e artístico originou-se, assim, com base na matriz espiritual do cristianismo e na ação pastoral da Igreja. Tudo isso graças à generosidade pública e privada, de comunidades e pessoas particulares, no comum empenho de louvar o Senhor. Os bens culturais da Igreja nascem como bens “cultuais”, ligados ao culto, à fé, ao louvor de Deus. Não são meros enfeites, não uma simples decoração, não são “detalhes” da ação pastoral, mas participam integralmente da missão evangelizadora da comunidade eclesial, dando continuidade à encarnação da ação divina na linguagem humana. O patrimônio cultural da Igreja, portanto, tornou-se um sinal das aspirações religiosas dos indivíduos e das coletividades, de modo a constituir um bem eclesial de importância primária, ordenado à inculturação cristã, ao anúncio evangélico, ao culto divino e às obras de caridade.

Hoje assiste-se a um despertar de interesse pelos bens culturais eclesiais e isso se percebe nas diversas iniciativas de proteção, preservação e valorização relacionadas ao patrimônio da Igreja. São muitas as pessoas que estão se reaproximando dos lugares da fé que mantêm uma identidade cultural, histórica ou artística. O próprio turismo organizado tem crescido nesse sentido. Porém, nem sempre tal aproximação é capaz de compreender esses espaços como “lugares espirituais”, pois o interesse, a visita e a curiosidade se limitam, muitas vezes, ao aspecto estético ou anedótico do bem. Na verdade, o patrimônio cultural da Igreja precisa ser “re-habitado” por aquele sentido espiritual que o levou à existência. Uma sadia valorização precisaria contemplar e motivar tal questão. Reabitar os lugares culturais produzidos pela fé para, assim, redescobrir e recuperar o seu sentido espiritual. Talvez, seria até interessante falar não de bens culturais “da Igreja” mas de bens culturais “na Igreja”, pois só no contexto eclesial é que podem ser compreendidos e devidamente preservados e valorizados.

Os bens culturais eclesiais compreendem “os patrimônios artísticos da pintura, da escultura, da arquitetura, do mosaico e da música, postos a serviço da missão da Igreja. A esses, acrescentam-se os bens sob a forma de livros, que se encontram nas bibliotecas eclesiásticas, e os documentos históricos conservados nos arquivos das comunidades eclesiais. Entram, enfim, neste quadro, as obras literárias, teatrais, cinematográficas, produzidas pelos meios de comunicação de massa”[1]. Tais bens constituem um patrimônio que pertence à comunidade cristã e, em virtude da dimensão universal que caracteriza o anúncio cristão, também pertence à inteira coletividade humana.

Se a tipologia dos bens culturais eclesiais é, como vimos, diversificada e articulada, a sua finalidade é exclusivamente humanística e eclesial, e, por isso, a Igreja se serve da arte, dos museus, dos arquivos, das bibliotecas para realizar a própria missão. A arte exprime a força criativa do gênio humano no dar ordem às coisas, revestindo-as de beleza; as bibliotecas “não são o templo de um saber estéril, mas o lugar privilegiado da verdadeira sabedoria que a narra a história do homem”[2]; os museus “não são genéricos depósitos de achados inanimados, mas viveiros perenes, nos quais se transmitem no tempo o gênio e a espiritualidade da comunidade dos fiéis”[3]; os arquivos “não só conservam vestígios de vicissitudes humanas, mas levam também à meditação sobre a ação da Providência divina na história, de maneira que os documentos neles conservados se tornam memória da evangelização operada no tempo”[4].

O valor dos bens culturais eclesiais está na memória histórica, enquanto evidenciam a continuidade bimilenária da “cultura cristã”, através da qual se desenvolve o caminho da fé de várias gerações. Está também no valor artístico, pois neles se revela a capacidade criativa do homem de imprimir no sensível a espiritualidade de cada comunidade. Está no conteúdo cultural, enquanto possuem uma intrínseca finalidade que se reflete nas formas artísticas através das quais se transmite à sociedade a aventura da sabedoria cristã. Está no significado litúrgico, pois tais bens são dispostos, sobretudo, à catequese e ao culto. Está na sua destinação universal, pois o evangelho é anunciado até “os confins da terra” através de linguagens compreensíveis a cada destinatário na universalidade da beleza sensível.

Os bens culturais eclesiais exprimem e exigem um empenho de promoção e de evangelização, enobrecendo a cultura e, nessa, as pessoas. Nesse sentido, a Igreja busca uma adequada valorização do próprio patrimônio histórico-artístico em termos de promoção humana e de evangelização cristã. É, portanto, desejável que a sociedade civil, mesmo na laicidade das instituições estatais, acolha uma cultura de inspiração cristã também capaz de servir e de emancipar as pessoas. Tal desejo não se funda sobre instâncias de privilégio, mas sim de democracia, uma vez que o Estado tem o dever de tutelar e proteger as escolhas civis e religiosas de todos aqueles que pertencem a ele. Com essas garantias institucionais, a Igreja pode, assim, licitamente realizar a própria missão, usufruindo adequadamente o patrimônio produzido pelos seus fiéis ao longo dos séculos.

É, portanto, oportuno valorizar pastoralmente os bens culturais eclesiais como expressão típica da inculturação religiosa, como manifestação peculiar da lógica da Encarnação, como uma promoção eficiente das tradições locais. Para uma emancipada valorização do patrimônio nacional, tanto os responsáveis eclesiásticos quanto aqueles civis devem compreender a necessidade de acionar estratégias conjuntas e sinérgicas que respeitem a destinação de uso desses bens na sua vitalidade religiosa.

Desse modo se evidencia o sentido antropológico e ético dos bens culturais eclesiais, que nas formas enobrecem a vida e nos conteúdos exprimem valores. Não é possível, pois, não considerar a relação entre bens culturais e as “periferias existenciais”, já que o patrimônio histórico-artístico é também expressão das misericórdias espirituais e corporais, confirmando que a Igreja é “especialista em humanidade”, como nos disse o beato Paulo VI. Os valores transmitidos pela arte podem, sim, iluminar as misérias existenciais, do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância, da ausência de fé. Com isso, a arte, por um lado, expõe a santidade e, por outro, exorta à caridade. O gosto pela arte é também um compromisso que solicita à coletividade uma experiência mais profunda dos valores humanos e da cultura cristã. A arte, na Igreja e para a Igreja, tem sempre esse aspecto formativo e nunca somente estético ou… polêmico.

Os bens culturais da Igreja constituem um patrimônio histórico-artístico complexo que encontra a própria unidade na missão eclesial. Trata-se, portanto, de um patrimônio litúrgico e ministerial, catequético e ascético, cultural e científico caritativo e ecumênico, que encontra a máxima expressão na arte, onde o “esplendor da forma”, evidenciando os conteúdos e indicando o inefável, torna-se “esplendor da verdade”[5].

Um patrimônio litúrgico e ministerial. Separar a liturgia da arte significa remover da liturgia o necessário aparato expressivo e retirar da arte um digno conteúdo religioso. A Igreja reconhece na arte litúrgica as características da sacralidade e da funcionalidade, de tal modo que se deve falar de funcionalidade sacra como pré-requisito da criatividade artística, sem eliminar, com isso, a autonomia expressiva como requisito da criatividade artística. Como parte integrante da liturgia, a arte sacra assume uma finalidade evocativa, invocativa, epifânica: ela recorda, chama e manifesta o mistério de Deus. Exercita, por isso, um “nobre ministério”, realizando em modo analógico o tríplice múnus sacerdotal, profético e régio do qual a Igreja é depositária.

Um patrimônio catequético e ascético. A arte sacra é instrumento de catequese, concretizando o anúncio do evangelho em inumeráveis códigos iconográficos. Enunciando o mistério divino, a arte contém e faz ver o núcleo do cristianismo que é edificado sobre as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. A relação entre fé e arte é complexa e mutável, mas existe “uma relação natural, uma profunda afinidade, uma estupenda possibilidade de colaboração. Tanto a arte como a fé exaltam a grandeza do homem e a sua sede de infinito”[6]. A fé que a Igreja dá testemunho é a chave hermenêutica da vida e a arte se torna manifestação icônica da revelação. A fruição estética, isto é, a contemplação e a experiência da beleza, contribui para o desenvolvimento equilibrado da personalidade, indicando a analogia que existe entre a harmonia da arte e a unidade da vida espiritual.

Um patrimônio cultural e científico. A cultura exprime a capacidade humana de transformação, na medida das necessidade naturais e sobrenaturais. A cultura de inspiração cristã, por sua vez, remete a um projeto orgânico fundado sobre pressupostos que servem à plena emancipação material e espiritual do ser humano. A produção de bens culturais eclesiais também comporta pesquisas científicas voltadas ao conhecimento do mundo, do homem e de Deus, além de promover meios e instrumentos destinados à missão da Igreja. Através desses bens é possível entrar em sintonia com o patrimônio sapiencial acumulado pela comunidade cristã ao longo dos séculos. Nesse contexto, os depósitos da memória, feitos de costumes e monumentos, livros e arquivos, narram a epopeia científica e cultural do cristianismo, apresentando-se como um bem “vivo” que permanece e transforma-se graças à incansável ação humana que assume um papel de ensino tanto nas obras a serem estimuladas quanto naquelas a serem evitadas.

Um patrimônio caritativo e ecumênico. O anúncio do evangelho através das obras de misericórdia é essencial para o cristianismo. O trabalho artístico se estende também a todos os aspectos da vida a fim de que o belo alivie o desgaste quotidiano. Nesse sentido, a arte, dentro do cristianismo, evidencia a finalidade do louvor a Deus e do serviço aos pobres. Enquanto o louvor busca a beleza das formas, o serviço deseja a beleza das obras. Assim, a arte conjuga-se à religião, revelando com discrição o empenho caritativo e estimulando a prática das virtudes,  sendo instrumento de diálogo entre culturas e credos, um instrumento que promove a justiça e conduz à paz.

Diante desta sua complexa e rica identidade, os bens culturais da Igreja exigem uma salvaguarda no âmbito da própria vivência eclesial. E essa se atua num contexto pastoral, dentro de uma relação de conhecimento e valorização. As instituições competentes, dentro e fora da Igreja, são chamadas a sensibilizar e a formar a coletividade para a utilização de tais bens de acordo com as finalidades que lhes são próprias. Por um lado, se deve ativar e disciplinar uma paciente e meticulosa obra de inventariação e catalogação, por outro, uma fervorosa ação de didática e circulação de informações. O patrimônio será, assim, continuamente redescoberto, pois o conhecimento humano progride intuindo novos aspectos da complexidade real e o próprio caminho religioso amadurece colhendo “coisas novas e velhas” do baú da revelação divina. Deve-se, portanto, favorecer um regime de harmônica continuidade entre a memória e o presente, não somente desfrutando o que foi produzido, mas também favorecendo novas produções.

Culto, catequese, cultura, caridade representam a projeção concreta das virtudes teologais que encontram na arte um sinal sensível. A é expressada por inumeráveis obras de arte, seja nas grandes igrejas urbanas, seja nas modestas capelas rurais. A esperança encontra nas ousadas arquiteturas e nos ciclos iconográficos a razão da sua persistência, pois através de tais obras o indivíduo é levado a olhar para as realidades ultraterrenas. A caridade é testemunhada pelos inumeráveis bens culturais colocados a serviço dos pobres, doentes e abandonados, como os hospitais, escolas, orfanatos…

Antes de concluir, gostaria de dar uma palavra sobre o turismo cultural. Se a missão da Igreja volta-se naturalmente ad intra para os fiéis e ad extra para os distantes, também os bens culturais eclesiais são dispostos ad intra e ad extra, ou seja, para dentro e para fora[7]. Assim, de um lado, servem para a santificação dos fiéis, de outro, servem à missão aos povos, isto é, à ação missionária da Igreja. Nesse contexto, a abordagem turística ao patrimônio histórico-artístico não é inoportuna, já que pode tornar-se um estímulo para a comunidade cristã, que assim experimenta a universalidade da Igreja na sua diversidade. Pode, também, apresentar-se como proposta evangélica aos visitadores, que assim intuem a importância da religião e da fé através da beleza e da magnificência da arte. Nesse sentido, o papa Bento XVI considerou que, para muitos turistas, “a linguagem da arte é parabólica, dotada de uma especial abertura universal” e que o caminho da beleza – via Pulchritudinis – “é uma senda capaz de orientar a mente e o coração para o Eterno, e de os elevar até às alturas de Deus”[8].

Nos dias atuais, nos quais se vão redescobrindo e revalorizando as tradições locais, recuperando o senso de pertença ao próprio território, não se deve pensar somente num turismo-fora, mas também se deve procurar e se desenvolver um turismo-dentro. Isso significa redescobrir no seio da própria Igreja a diversidade cultural presente na sua própria identidade católica. Desse modo, o turismo pode também se tornar um meio de evangelização, quando faz crescer o conhecimento recíproco entre comunidades de culturas diferentes, tornando-se um momento introdutório e fundamental para a atividade pastoral.

Enfim, uma conclusão. Os bens culturais são destinados à promoção integral do ser humano e, no contexto eclesial, assumem um significado específico, uma vez que estão ordenados à evangelização, ao culto e à caridade. A sua tipologia é diversificada, mas nela se exprime a força criativa do inteligência humana que se faz intérprete de uma mensagem que transcende a realidade mas que, ao mesmo tempo, está inserida num determinado tempo e espaço. E essa mensagem só pode ser compreendida se lida dentro do seu contexto, ou seja, a partir da vivência eclesial.

No horizonte da salvaguarda do patrimônio cultural eclesial, a palavra “conservação” pode parecer inadequada, porque é redutora e estática: se se quer inserir os bens culturais no dinamismo da evangelização, não podemos limitar-nos a mantê-los na sua integridade e a protegê-los. “É necessário realizar a sua promoção sábia e orgânica para inseri-los nos circuitos vitais da ação cultural e pastoral da Igreja”.

A proteção dos bens culturais da Igreja exige, portanto, a reapropriação crítica de tal patrimônio por parte da comunidade cristã, além do seu usufruto contextual por parte da sociedade civil. Essa intenção comporta, porém, múltiplas estratégias de sensibilização, políticas de planejamento, de recursos e investimentos, iniciativas de promoção e valorização do que se possui, de modo a favorecer um melhor conhecimento. Se realizadas, essas ações podem conduzir a um novo humanismo capaz de “civilizar” a globalização, fecundando-a de sentido histórico, de beleza artística e de sementes espirituais. Saber transformar o patrimônio cultural da Igreja num instrumento vivo e necessário, útil à ação pastoral e à vida espiritual das pessoas é um dos desafios que as comunidades eclesiástica, acadêmica, profissional e social devem assumir e enfrentar.

[1] JOÃO PAULO II, Discurso aos membros da Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja, 12 de outubro de 1995.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Cf. CHENIS, Carlo, Abitare il bello. Firenze: Polistampa, 2006, 22-28.

[6] JOÃO PAULO II, Discurso no Congresso internacional dos artistas cristãos, 14 de outubro de 1986.

[7] Cf. CHENIS, Carlo, Abitare il bello. Firenze: Polistampa, 2006, 36-40.

[8] BENTO XVI, Discurso aos dirigentes e funcionários dos Museus Vaticanos, 25 de outubro de 2012.

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